PRÓXIMOS NO DISTANCIAMENTO

por Marcos Paulo L. de Rezende


Todo marco histórico traz consigo uma rica e variada gama hermenêutica. Múltiplos e variáveis são os desdobramentos e as formas de recepção de um mesmo evento. Hoje, o COVID-19 é o fato mundial mais atual e mais discutido. Uma pandemia que fecha e abre caminhos ao assinar na História a travessia entre dois séculos, revelando ao novo tempo suas potencialidades e seus limites na chamada “desrotina do fazer”. Em se tratando de fatos históricos que marcaram séculos destacamos: a Primeira Guerra Mundial (1914-1918); a Gripe Espanhola (1918) e o Colapso da Bolsa de Valores (1929). Não há dúvidas de que todos esses eventos trouxeram inúmeros impactos à humanidade e, com eles, novas possibilidades de se repensar o ser humano e seu agir moral na sociedade. Contudo, da crise se descortinam novos horizontes. É imprescindível viver esse momento com seriedade e, por conseguinte, o imperativo “fique em casa” exige de nós um retorno mais consciente ao nosso lar e questiona o nosso “modo de fazer as coisas”. É possível sermos mais flexíveis, criativos e inovadores na ação e no cuidado com a nossa Casa Comum? Instaura-se uma nova temporalidade onde nos encontramos como estrangeiros em nosso próprio espaço, em nosso próprio tempo. A exatidão das nossas agendas é colocada em xeque, pois já não se pode mais ter tanta certeza sobre futuros eventos. Estamos na teia da vulnerabilidade! Portanto, é preciso silenciar-se para se ouvir e ouvir o outro; avaliar-se para projetar-se no futuro de forma mais consciente e consistente e, finalmente, descobrir em meio à nova temporalidade o melhor lugar de nós mesmos. A chamada ao isolamento não será humanizante e promissora se sua conotação não for marcada pelo “afastamento no amor”. Esse distanciamento temporário das pessoas queridas nos remete à narrativa judaica da criação (ex nihilo), ou seja, à separação de um Deus que nos ama. Deus é livre onipotência, e tudo aquilo que existe tem seu fundamento último na sua gratuidade. Deus cria o ser humano por amor, bem como as mediações pelas quais Ele se dá a conhecer, revelando-se na sua obra criada. Sem dúvidas, a criação não surge por si mesma, mas é colocada, livremente, por Deus na existência. Porque aprouve a Deus construir conosco uma relação de amor, Ele nos fez pessoas livres para amar, ou seja, Deus é relação e plena liberdade no amor. Deus, em seu agir, cria ao falar “Faça-se” (cf. Gn 1-2) e se afasta do ser criado sem deixar de ser próximo. Com Ele somos ensinados a também nos afastar, sem deixar de existir e, existindo, ser, sem deixar de amar. Vivendo a ausência da presença, não deixamos de ser presente e nos fazer presentes para quem amamos. Estamos próximos no distanciamento. Essa distância quando vivida e sentida no amor não é desértica, mas terra fértil e propícia para o germinar da saudade. Quase sempre a saudade é capaz de tornar o amor mais autêntico, pois ela purifica e apura, tornando mais consistente aquilo que se vive e se sente. Quando somos separados no amor, ou seja, quando usamos a nossa liberdade em nos permitir viver no contexto do amor que separa, nos tornamos mais fortes e somos perguntados pelo tempo acerca das nossas relações interpessoais e de vínculo afetivo ou conjugal: ao longo da vida, nós criamos laços ou nós de amizade? Em suma, é tempo de nos desarmarmos e deixar Deus e seu poder criador e recriador que sustenta o universo com aquilo que lhe é mais próprio: “o Amor”, pois Deus é Amor (cf. 1 Jo 4,8b), nos ensinar a arte de recriar uma nova e sempre viva forma de viver. É hora de reaprender a ser “normal”, mas dentro de uma normalidade humanizada que nos faça viver a vida com sabor de “mais ser”. Não tenhamos medo, tenhamos fé!


Marcos Paulo L. de Rezende

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