LIÇÕES DA ESPIRITUALIDADE EM TEMPOS DE PANDEMIA


Estamos vivendo um tempo de travessia com a pandemia do novo coronavírus. De uma hora para outra, uma ameaça invisível colocou toda a humanidade de joelhos, desprovida de qualquer defesa. Como num piscar de olhos, vimos tudo virar de cabeça para baixo: nossos compromissos foram cancelados, nossa rotina foi modificada, nossos gestos mais inofensivos, como o abraço e o aperto de mão, foram proibidos, entre outras coisas. Passado o primeiro impacto, com toda onda de incerteza e medo que tomou o coração de todos, estamos aprendendo a conviver com o novo normal imposto pela pandemia. Não há receitas ou soluções rápidas para esse drama que estamos vivendo. Sentimo-nos navegando num mar sem bússola. Porém, nós, homens e mulheres de fé, temos um mapa a nos guiar nesses mares tempestuosos: a espiritualidade. A espiritualidade é aquela dimensão da existência que nos conduz para fora de nós e nos faz entrar em relação com Deus, e abre perspectivas novas para olharmos a nós mesmos e o mundo ao nosso redor.


A espiritualidade nos ajuda a tomar consciência da nossa vulnerabilidade e nos estimula no exercício da resiliência. O ser humano é precário, a fragilidade está presente em diversos âmbitos da vida, e temos controle sobre pouquíssimas coisas. A pandemia veio para nos relembrar que somos pequenos e não podemos tudo. Mas a vulnerabilidade pode ser espaço para redescobrir a força e a confiança necessária para caminhar, que já estão dentro de nós. No cultivo da vida de fé e da espiritualidade, o cristão aprende a aceitar a vida como ela é, sem conformismo, mas buscando se superar constantemente: “Basta-te a minha graça; pois é na fraqueza que a força se realiza plenamente” (2Cor 12,9).


A pandemia nos mostrou que todos dependemos uns dos outros, pois o que acontece numa parte do mundo impacta todo o resto. Junto com a pandemia veio uma avalanche de prejuízos econômicos e sociais. Ao contrário do que se pensa erroneamente, a espiritualidade não é algo privado, que nos desliga da realidade e nos anestesia, pelo contrário, nos torna mais conscientes dessa solidariedade que abarca toda a criação. A dor, o sofrimento, a privação do próximo também dizem respeito a nós. Quem possui um coração trabalhado pela compaixão, compreende que este tempo é uma ocasião propícia para sermos mais solidários, mais generosos na partilha do que temos, e mais conscientes dos nossos atos que podem impactar a vida do outro negativamente.


Durante o período em que nossas igrejas ficaram fechadas, muitas pessoas redescobriram a sua casa como um espaço para o encontro com Deus. A vida de fé e o exercício da espiritualidade não estão confinados aos limites do templo, mas podemos e devemos viver nosso encontro com Deus também no recolhimento de nossas casas, na intimidade do nosso quarto, nas relações que constituímos. Nossa família também é chamada a ser uma “Igreja doméstica”, uma pequena parcela do Povo de Deus que ora e vive com fé a sua Palavra.


Em meio a tantas notícias ruins, custa-nos encontrar uma luz no fim do túnel. Porém, o cristão sabe que quem escreve a nossa história é o Senhor, ainda que por linhas aparentemente tortuosas e pouco legíveis. Por isso, vive cada dia com confiança e esperança, sem cair no desespero ou no pessimismo. Quem vive orientado pela espiritualidade sabe sempre tirar do mal um bem. Não fica com os braços cruzados, esperando que Deus faça tudo, mas assume sua parcela de responsabilidade na solução dos problemas.


Poderíamos apontar ainda outros elementos que podemos colher de uma vida espiritualmente fecunda, mas os que apontamos já nos ajudam a perceber que não estamos sozinhos em nosso barco, mas junto conosco está Jesus, que nos repete insistentemente: “Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!” (Mt 14,27).


Pe. Rodrigo C. Silva, C.SS.R.

Cariacica/ES



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