A redescoberta do amor e a direção espiritual


Caros leitores, partilho com vocês nosso último passo na Reflexão sobre a Orientação espiritual. Portanto, se possível for, antes de ler o artigo de agora, retome a leituras dos artigos dos meses de junho e julho. Espero que você descubra o quanto Deus quer estar próximo de você, e que Ele nos oferece o mais belo dos convites para, de modo íntimo e corajoso nos abrirmos a sua graça. Se Santo Afonso luta contra as correntes rigoristas que ignoram a experiência amorosa de Deus, podemos propor no acompanhamento espiritual os caminhos que nossa Igreja sugere, tendo sempre como base o amor a Jesus Cristo, base da existência cristã. Considerando a importância das virtudes teologais, o cultivo da fé, da esperança e da caridade (amor), Afonso acentua o amor caminho que nos leve às mesmas virtudes. Maior virtude é esperar e alcançar de Cristo aquilo que almejamos. Na orientação espiritual, a tarefa principal do orientador é ajudar o orientando a entrar nesse caminho de amor, a descobri-lo em sua vida e fazer dele o valor supremo de sua existência. Uma orientação espiritual segundo Santo Afonso se centrará no amor. “O homem que ama compreende que o céu também se constrói aqui. Se esperamos ir amá-lo (Deus) no céu, devemos sempre mais amá-lo enquanto podemos neste mundo. Amando poderemos desejar ser todo dEle e Ele todo nosso por toda a eternidade”. (AFONSO, A prática de amor a Jesus Cristo, p. 204-216). Como vimos, há um ‘ainda não’ que marca nossa existência. Os sacramentos e a oração possibilitam o ‘já’ de nossa conformidade com Cristo. A orientação espiritual ajuda nesse processo. São meios que nos ajudam a alcançar a plenitude do amor de Deus nós revelada e dada em Jesus Cristo. Nos sacramentos e na oração somos saciados pela graça amorosa de Deus. Estes nos fazem estar em união com a própria essência do amor. O orientador espiritual terá a importante missão de ajudar seu orientando a aprofundar seu relacionamento com Deus na oração e a redescobrir a vida sacramental, lugar privilegiado da graça, mormente a eucaristia, que para Santo Afonso é a permanência do amor de Deus manifestado no calvário. Um amor sempre à nossa disposição no sacramento da eucaristia. Em 1Cor 13, Paulo nos fala: “atualmente permanecem estas três: a fé, a esperança, o amor. Mas a maior delas é o amor”. Sim, o amor é a virtude maior que temos e foi puramente por amor que o Verbo se encarnou, sofreu a paixão e se fez pão por nós todos. Mas para chegarmos a tal virtude, fica-nos a tarefa de sempre e cotidianamente praticarmos e cuidarmos do amor. Pela orientação espiritual, nós nos lançamos na prática de amor a Jesus Cristo e descobrimos que ao cuidarmos bem de nossa vida espiritual e ao mesmo tempo ajudarmos para que outros também o façam, faremos o caminho da intimidade com Deus, sempre conscientes de que seremos levados ao encontro de duas realidades “o eu orante e o Tu de Deus”. Abertos a graça do Espírito, entenderemos a ajuda que orientadores podem oferecer, assim como Afonso, para que outros desenvolvam melhor sua relação com Deus. A ternura e o zelo, a compaixão e a bondade, levam-nos à busca da união perfeita com o amor dos amores, que tem como propriedade sua se dar a nós para dar sentido à nossa vida e nos levar a fazer da nossa vida um serviço aos irmãos. Nele descobrimos que também podemos ser infinitamente amorosos e que nossa liberdade para amar é liberdade dada. O amor de Deus liberta nossa liberdade do egoísmo e nos faz sair de nós mesmos. Nesse sentido, a orientação espiritual não centra o orante só em sua relação com Deus, mas o leva a descobrir a necessidade de amar Cristo nos irmãos. A consequência de uma orientação bem-feita é ajudar a redescobrir a relação com as pessoas numa dimensão de solidariedade. Afonso, a partir de suas experiências leva-nos a perceber que também nós podemos fazer a experiência do amor que transforma nossa vida e lhe dá um novo sentido. E a orientação espiritual nada mais é do que um serviço a essa experiência. Em nossos dias, muitos são os que buscam descobrir caminhos que possibilitem uma experiência de Deus em e com Jesus Cristo. Por se tratar de um caminho de orientação espiritual, valido é saber que no exercício da orientação espiritual, fundamental é a busca de entrar no mistério de Deus em Cristo ao qual nos capacitou o Espírito Santo. O pano de fundo a solidificar a base de nossas relações com Deus é a própria ação de Deus em nossas vidas, o que só pode ser descoberto numa atenção à presença de Deus em nós, que supõe oração e é discernida pela orientação espiritual. Buscando fazer esta passagem de Santo Afonso para o momento atual, entendemos que a busca de nosso autor é que seus leitores enveredem-trilhem a via do desejo. Desejo de Deus, que habita o ser humano e reclama atenção. E a orientação espiritual deve levar em conta nosso desejo mais profundo de uma comunhão permanente com Deus em Cristo. Em seus atos de amor, o ser humano deve buscar acima de tudo expressar sua ‘memória agradecida’ pela presença de Deus nele através do Espírito que o configura a Cristo. Daí nasce o afeto para com Jesus Cristo. Ao escrever para os seus, de maneira afetivamente simples, Afonso sabe que o povo humilde não é capaz de compreender a linguagem difícil da teologia elaborada e acadêmica. Vemos em seu Livro “A prática de amor a Jesus Cristo” que a linguagem afetiva é logo entendida pelo povo que absorve rapidamente o conteúdo sentimental da fé cristã, sobretudo sua doutrina sobre a oração afetiva. A orientação espiritual é um serviço a todos aqueles que querem entrar numa relação mais intensa com Deus através de um afeto profundo e verdadeiro. Dalton Barros de Almeida, missionário redentorista, falando sobre a obra aqui estudada, dá-nos esta bela definição que pode ser tomada como proposta espiritual que ilumina a orientação espiritual: “Ao olharmos para a vida de nosso escritor, percebemos como o Eros fervilhava em seu interior como busca incansável em sua ascensão para Deus; como Eros renovava seu vigor e seu zelo pastoral. É o Eros que vence em Afonso a tendência tão humana de acomodação à Lei do menor esforço. Justamente por ter vivido marcado por este amor, é que seus atos e sua vida se configuram sem espaço para a mediocridade. Aliando Eros e Ágape, Santo Afonso se faz um ser apaixonado, abrasado, incansável e totalmente voltado para os pobres de sua época. Ele se propõe não perder tempo. O dinamismo do amor de Deus, correndo em sua vida (Ágape) faz de nosso escritor um apaixonado e orientado para algo concreto, onde o cotidiano de suas ações e pensamentos em relação a Deus e ao próximo se traduzem em afetuosidade”. (ALMEIDA, D. B., Proposta espiritual de Santo Afonso, Juiz de Fora, 1991, Pro – manuscrito). Afeto e ação seguem juntos e Afonso apresenta Jesus e o mistério da redenção como dom e graça para todos nós. Na arte de amar cristicamente, as dimensões afetivas e efetivas se conjugam. O Deus que nos ama, pede nosso amor e se oferece como aliança para uma vida mais plena. O cristão responde com amor afetuoso, amando também o próximo; aqui amor é serviço para o crescimento. O amor é a resposta que podemos dar ao amor que nos foi oferecido. A prática de amor a Jesus Cristo é o amor Ágape sem deixar de sentir que nossa vida é também Eros. A vida cristã é impulsionada pelo amor Ágape, pois é como podemos ver na Encíclica de Bento XVI, o amor praticado como exercício que nos faz esperar não uma retribuição, mas apenas nos faz fundamentar amorosamente nossa vida em Deus, como seres predispostos a amar, pois “Deus ama o homem. (...) ama, e este amor pode ser qualificado sem dúvida como Eros, que, no entanto, é totalmente Ágape também” (BENTO XVI, Deus caritas est, n. 9). Com isto, o amor de que trata Afonso não é puramente espiritual, mas amor que envolve Eros, na medida em que envolve os afetos, os sentimentos e os desejos. E tudo isto deve emergir na orientação espiritual, que tende a contribuir para o equilíbrio do orientando, em visa de uma vivência eclesial bem mais consistente. A experiência cristã de Afonso passa pela insistência na descoberta do amor como a maior das virtudes que podemos cultivar na atualidade. A orientação espiritual como caminho da prática de amor a Jesus Cristo leva-nos, portanto, a alegrar-nos com os sinais de Deus em nossa Vida e se assim nos abrirmos, veremos a mesma graça acontecendo em nossa vida. Portanto, o verdadeiro amor a Deus e aos irmãos, tratado por Afonso (prática de amor a Jesus Cristo), deve ser fomentado pelo exercício da orientação espiritual. Existe uma comunicação amorosa de Deus que a pessoa deve descobrir. Em Jesus temos a revelação do amor do Pai, ou seja, em Jesus, Deus revela o seu verdadeiro rosto: o amor. Este só pode ser entendido se levado em conta sua fundamentação ‘cristológica-sacramental’ da experiência do amor cotidiano que é nossa resposta cuidadosa, amorosa, para com a revelação de Deus em Jesus.

Em última instância, como aprendemos do evangelho, a vida cristã se resume na comunhão com Deus em Cristo possibilitada pelo Espírito, comunhão que se desdobra existencialmente na fraternidade vivida. Eis a vocação cristã, a serviço da qual está a orientação espiritual. Na verdade, ajudar o cristão que busca a orientação espiritual a descobrir o amor de Deus manifestado em Cristo para que o ponha em prática, amando a Deus que é Trindade e aos irmãos, resume o serviço eclesial da orientação espiritual. Meus diletos, concluímos assim, nossa partilha. Olhando a vida de São Geraldo, podemos ter uma certeza: Deus esteve sempre com ele e nosso querido padroeiro soube ajudar as pessoas a estarem com Deus. Ele mesmo esteve também sempre com Deus! Sigamos pois na audaciosa procura em fazer um caminho de intimidade com Deus e claro, na vivencia de uma espiritualidade de entrega, redescobrir o quanto o amor de Deus nos envolve! Deus o abençoe e guarde!

Pe. Edson Alves da Costa, C.Ss.R


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