Aprofundando a nossa fé

O cristão diante da política e dos partidos políticos.

Caríssimos amigos leitores: Como vocês podem imaginar, escrevo a partir de uma realidade um pouco estranha à normalidade, ou seja, aquela do isolamento domiciliar que estamos vivendo na Itália por causa da pandemia Coronavírus. Para que vocês tenham uma noção, apenas as pessoas que devem obrigatoriamente sair de casa podem fazê-lo, assim mesmo, com uma espécie de permissão para passar pelo controle policial. Em meio a todo esse “caos”, me assusta algumas posturas no Brasil que vi através da mídia como, por exemplo, a desobediência de alguns às normativas do governo de evitar aglomerações andando à uma manifestação em favor do mesmo governo que ditou as normativas. Estranho, não é? É a partir desta incoerência que entraremos no tema deste pequeno artigo.

Vivemos em tempos de polarizações. Não somente no campo político, embora esta seja a mais noticiada, mas também em todos os âmbitos de expressão de pensamento e posicionamento. Polarização, como nos explica o dicionário, significa “concentração em extremos opostos (de grupos, interesses, atividades etc.)”. Trata-se de uma postura rígida, inflexível, que não se abre a nenhuma possibilidade de diálogo real, ou seja, não se abre à verdadeira escuta que se deixa criticar pelo posicionamento dos outros. Infelizmente, nos encontramos em tempos de “monólogos narcisistas”.

Quando nos perguntamos sobre os partidos políticos e sobre a participação de um cristão na vida política, devemos considerar algumas coisas. O primeiro dado vem da teologia, do fato de que o cristão é um ser-humano histórico e social, ou seja, vive em sociedade/comunidade desenvolvendo-se em história. Sendo assim, o cristão é um ser fundamentalmente político (no sentido forte da palavra) uma vez que está envolvido na vida comum, buscando o “bem comum e pessoal”, como viveu Cristo e nos deixou como missão. Desta forma, não nos entendemos como seres isolados, mas chamados à comunhão real.

O segundo ponto a ser considerado vem da teologia moral e diz respeito àquilo que comumente chamamos de “senso crítico” e nos coloca diante a duas virtudes, prudência e discernimento, dois componentes importantíssimos do que chamamos consciência. Assim, no uso de sua liberdade, cada cristão é chamado a crescer em conhecimento e experiência de vida, fazendo responsavelmente suas escolhas, construindo sua história pessoal no interior do contexto maior comunitário/social.

O terceiro dado vem das ciências sociais, e diz respeito aos partidos políticos: desde a Mesopotâmia antiga, séculos antes de Cristo, existem os partidos. O ser-humano encontrou nestes espaços de agregação um lugar para debater internamente com aqueles que pensam mais ou menos na mesma linha e externamente com aqueles que se colocam em posições diversas. Trata-se assim simplesmente de espaços onde o diálogo pode acontecer de maneira diversa e enriquecedora. Em teoria, nada de mal. Individualmente, cada um faz suas opções. A Igreja como unidade de diversos, mantém-se apartidária, ou seja, sem partido, na busca mais ampla pelo que é justo.

Agora vamos aos problemas, ou seja, à análise crítica disto tudo. Que um cristão, como ser social/comunitário, se envolva na vida política e, talvez, venha a participar de um partido político, não tem nada de absurdo nisto. O verdadeiro problema é quando, em um quadro catalizador de doenças socais, surge a polarização, ou seja, para o indivíduo e um grupo existe somente uma interpretação da realidade. Neste caso, não se exercita bem nem a prudência nem o discernimento, levando a um contexto de consciência errônea.

Voltemos ao exemplo que citei ao iniciar este artigo. Que uma pessoa, em reta consciência, esteja de acordo com um determinado modelo de vida ou com o modelo de um determinado governo ou de um partido e queira manifestar isto, deve, por dever de consciência, estar aberta ao diálogo com as partes dissonantes no caminho de busca do bem comum, bem como exercer sobre seu próprio ponto de vista uma crítica real. Isto leva necessariamente a uma preocupação com o bem dos demais, que graças à fé os reconhecemos com a forte palavra “irmãos”. Fechar-se é a pior doença.

Assim, no atual contexto de polarização que encontramos em nosso país, percebo que o mal mais profundo, criador de todos os outros, está na cegueira e no fechamento egoísta em determinados pontos de vista, que se desenvolve no exercício de monólogos totalitários que matam de diversas formas. Isto vem somente a garantir e sustentar o insustentável império de um “eu” doente e manipulador. Em uma parte ou outra existem os sensatos, os cegos e os manipuladores. Um partido político sem crítica interna, fechado sobre si mesmo, a história já nos mostrou que na verdade é um Reich hitleriano. Coragem e prudência. Seja um sensato (prudente)…

Pe. Maikel Pablo Dalbem, C.SS.R. Roma/Itália


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