Dar da própria pobreza: uma experiência missionária


No final de 2017, fui designado para uma experiência de estágio pastoral em Moçambique, no continente Africano, como parte do processo formativo na Congregação do Santíssimo Redentor. O objetivo da experiência é criar um maior senso de missionariedade, perceber outras realidades da Congregação no mundo e ampliar os horizontes. Permaneci em terras moçambicanas por seis meses e, ao longo desse período pude conhecer um pouco a realidade desse país, conhecendo e convivendo com seu povo, e aprendendo com os valores e riquezas da cultura africana. No princípio foi bem desafiante estar em outra terra, adaptar-me, criar um novo cotidiano. Mas pouco a pouco, com ajuda dos meus confrades e do povo moçambicano fui encarnando e vivendo com alegria a experiência pastoral. Moçambique está localizado no sudeste do continente Africano, possui uma área de 801.590 Km², e conta com aproximadamente 28.861.863 habitantes. Possui um passado em comum com o Brasil, já que também foi colônia portuguesa e de lá saíram muitos africanos escravizados no triste episódio de nossa história. O português é falado e compreendido por muitos, e convive com as diversas línguas e dialetos locais. O país alcançou sua independência em 1975, e em seguida, enfrentou uma terrível guerra civil (1977-1992), que até hoje traz marcas profundas na população. Trata-se de um país rico em recursos naturais e que tem crescido bastante nos últimos anos. Apesar disso, sua população convive com os piores índices de desigualdade e qualidade de vida do planeta, e sofre as consequências da corrupção estrutural do país. Desde o início, me impactou muito a pobreza do povo moçambicano, que carece dos recursos fundamentais para viver uma vida digna. Não é raro ao caminharmos pela rua, ver alguém nos abordando pedindo dinheiro ou algo para comer. É muito triste ver também idosos e doentes que não recebem nenhuma assistência. No entanto, apesar de todas as dificuldades enfrentadas por este povo, pude testemunhar a força incrível que possuem, a resiliência, a capacidade de lidarem com condições tão adversas, e a alegria vibrante sempre estampada em seus rostos. Trata-se de um povo muito alegre e festivo, que gosta de se reunir para celebrar os fatos marcantes da vida. Também a Igreja moçambicana é bem viva! As celebrações dominicais são animadas e bem participadas, pois o moçambicano(a) valoriza muito os momentos de celebração. É bonito escutar toda a assembleia cantando em diferentes vozes e tons diversos, num coro harmonioso. Também se dança nos momentos do ofertório e de ação de graças. Impossível não se mexer um pouco no decorrer das celebrações (Risos)! Se me perguntassem qual imagem usaria para expressar minha experiência em Moçambique, penso que seria aquela de Lucas 21,1-4, que nos conta sobre o gesto da pobre viúva que depositou no cofre do Templo tudo aquilo que tinha para viver. Gesto louvado e reconhecido por Jesus como sinal de alguém que realmente vive a dinâmica do seu Reino, baseado não no supérfluo ou no desperdício, mas na humildade, confiança e generosidade. Lá realmente se percebe a encarnação desse gesto! O povo moçambicano é muito pobre, mas mesmo assim, possui uma generosidade imensa, não poupam esforços em ajudar. Doam do que tem para viver e não daquilo que sobra. Quando doam, o fazem com alegria, no autêntico espírito cristão (cf. 2Cor 9,7). É bonito e comovente ver a procissão das ofertas na qual cada um leva ao altar para oferecer ao Senhor, os frutos da terra e os bens que possuem. Tal como a pobre viúva que simplesmente entregou o único que possuía, confiando providentemente no cuidado de Deus, pude conhecer a confiança e abertura deste povo para as “coisas” de Deus. Aliás, esta deveria ser a atitude de todo cristão que não coloca sua confiança nas falsas seguranças, mas em Deus somente! Vivendo lá e partilhando com o povo também do pouco que trago na minha bagagem, pude ver renovada a minha fé, minha generosidade e confiança no Deus que me chamou e me enviou àquelas terras. Também pude fazer a experiência da pobre viúva, aprendendo a dar da minha pobreza! Nossas constituições, que regem a nossa vida missionária, nos convidam a viver uma vida missionária verdadeiramente pobre, que “demonstre solidariedade com os pobres e se tornem para eles um sinal de esperança” (Const. 65). No final, o gesto de dar da própria pobreza se transformou em suprema riqueza para ambos. Voltei agradecido e enriquecido pela experiência e também deixei lá parte do meu coração redentorista! Kanimambo, Hosi! Hosi Katekisa Afrika! (Obrigado, Senhor! Senhor abençoe a África!)

Fráter Rodrigo Costa, C.Ss.R


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Basílica de São Geraldo

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