Existência Pascal por Fráter Rodrigo Costa.


O acontecimento da morte e ressurreição de Cristo é o coração e fundamento de nossa fé cristã, como bem expressou São Paulo: “Se Cristo não ressuscitou, então a nossa pregação é inútil e também é inútil nossa fé” (1Cor 15,14). Através de sua morte na cruz, o Filho revela até onde pode ir a radicalidade do amor e solidariedade de Deus com a humanidade, assumindo nossos sofrimentos e nossos pecados. Ao ressuscitá-lo, o Pai arranca o Filho do reino da morte e confirma a vida e a missão de Jesus, levando-as a plenitude. “À sua existência totalmente doada, até a morte no abandono, se segue a ressurreição, que é resposta acolhedora do Pai em relação a todo caminho sacrifical do Filho” (Bruno Forte). Com o acontecimento da ressurreição a morte não tem mais poder sobre Jesus e nem sobre nós, pois pertencemos a Ele. Assim, fica claro que a celebração da Páscoa é o eixo central da vida cristã. Tudo converge para o Mistério da Paixão-Morte e Ressurreição de Cristo. Cada vez que celebramos o Mistério Pascal de Cristo, somos convidados a percorrer o itinerário humano de Jesus, acompanhá-lo em seu ministério e pregação, subir com Ele para Jerusalém, e com Ele viver a experiência de morte e ressurreição.

Tudo começou a partir da experiência de um encontro. O próprio Cristo ressuscitado tomou a iniciativa de dirigir-se aos seus discípulos, tal como nos mostram os relatos das aparições (cf. Mc 16,9-20; Mt 28,9-10.16-20; Lc 24,13-33; Jo 20,14-29 e 21). A partir desse encontro, os discípulos reconhecem que Jesus vive, e esta experiência mudou radicalmente suas vidas, pois de medrosos fujões, incapazes de permanecem com o Senhor na hora mais dolorosa, eles se transformam em testemunhas corajosas do Ressuscitado. Após este encontro de graça, os discípulos passam a uma existência nova, marcada por um novo sentido, que se expressa na vida de doação e na coragem para testemunhar. Estas atitudes são as mesmas que devem orientar a nossa vida cristã cada vez que celebramos o Mistério Pascal, no hoje de nossa história.

A vida de Jesus foi uma Páscoa continua, isto é, uma contínua passagem para o Pai. Jesus era um homem voltado totalmente para o Pai e para o Reino. Pode-se dizer que Ele se realiza plenamente saindo de si, ao ponto de em obediência a vontade do Pai, oferecer a própria vida. Sua realização maior consiste em ser para o Pai e ser para os outros. Deste modo, a Páscoa de Jesus deve questionar a maneira como vivemos a nossa vida e nossa própria realização pessoal. Celebrar a Morte e a Ressurreição de Jesus, imersos na cultura do consumismo, que prega o ideal da auto-realização a todo custo, e que é avessa a toda ideia de sacrifício, significa entrar em contradição com a lógica deste mundo e rever nossas opções de vida, isto é, se nossa fé no Cristo ressuscitado no leva à solidariedade e comprometimento com os crucificados e injustiçados, se somos também capazes de dar a vida, de nos entregarmos por amor as vítimas de nosso tempo. Por outro lado, confessar a fé no Ressuscitado significa passar da servidão aos ídolos de todo tipo (dinheiro, poder, sexo, etc), que nos escravizam e geram a morte, ao serviço ao Deus da vida, que nos liberta do pecado e nos faz participar de sua comunhão de vida e amor.

O encontro com o Senhor ressuscitado abre os discípulos para a missão, isto é, para serem testemunhas da Ressurreição até os confins da terra: “Ide pelo mundo inteiro e anunciai a Boa notícia a toda humanidade” (Mc 16,15). Após cada encontro entre o Vivente e seus discípulos, há um convite, um impulso para a missão (cf. Mc 16,7; Mt 28,10; Lc 24,33-35; Jo 20,17-18). De fato, os discípulos não poderiam experimentar a força transformadora do encontro com o Ressuscitado, sem se tornarem anunciadores e testemunhas desta Boa notícia: “O Vivo se oferece aos seus e os torna vivos de vida nova, testemunhas daquele encontro com ele, que marcou para sempre a sua existência” (Bruno Forte). Sendo assim, o túmulo de Jesus não é ponto de chegada, mas ponto de partida para a missão. Este encontro de vida transforma a vida de cada discípulo, tornando-a presença do Cristo ressuscitado no meio da humanidade, se tornam vivificadores de toda história: “Por conseguinte, se alguém está em Cristo, é uma nova criatura: as coisas antigas passaram e tudo foi feito de novo!” (2Cor 5,17).

“Quem tiver ouvido a mensagem pascal não pode mais andar com o rosto trágico nem levar uma existência de pessoa sem humor, que não tem esperança” (Schiller). A experiência da ressurreição começa agora, é vida e esperança transbordante, capaz de envolver toda vida humana que se deixa tocar pelo mistério do Ressuscitado. Com a Ressurreição de Jesus, somos introduzidos numa existência nova, somos chamados a viver como ressuscitados nas realidades de nosso mundo. Após o encontro com o Ressuscitado, não é mais possível compreender da mesma forma o sentido da nossa vida, pois a Ressurreição transforma a nossa consciência, muda o sentido da nossa vida, nos faz homens e mulheres novos, em outras palavras, passamos a viver uma existência pascal, a Páscoa se torna nossa história.


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